Numa dessas dinâmicas de equipa em que toda a gente é obrigada a partilhar qualquer coisa, pedem-te para dizeres o que aprendeste sobre ti este ano.

Respondes.

Sai uma frase decente, até bonita, do tipo que dava para pôr por baixo de uma foto. Todos acenam.

No caminho para casa já nem te lembras bem do que disseste e, mais importante do que isso, nada na tua semana mudou por causa dessa resposta.

É isto que costuma acontecer com perguntas de autoconhecimento pensadas para produzir uma resposta.

Dás uma, soa bem, e fica ali fechado o assunto.

Não porque a pergunta fosse má, mas porque uma boa resposta não é mesmo o objetivo.

Uma pergunta está a fazer o seu trabalho quando muda aquilo em que passas a reparar depois, não quando te dá uma frase para repetir.

Seis perguntas para levares contigo

Muitas listas de perguntas de autoconhecimento são feitas para quantidade.

Cinquenta perguntas, cem, e tu passas os olhos à procura de uma que te toque.

Aqui ficam seis em vez disso, cada uma ligada a um tipo de padrão diferente.

Nenhuma serve para responder de vez. Servem para andar contigo uns dias e veres o que começa a tornar-se visível.

O que continuo a aceitar antes de perceber se quero?

Repara na rapidez com que o sim aparece e no que acontece imediatamente antes e depois de o dizeres.

Às vezes o intervalo entre o pedido e a tua resposta quase não existe.

Em que situações a minha reação parece sempre maior do que o momento?

Não se a reação está certa ou errada.

Só onde aparece mais do que uma vez, com pessoas ou situações que, de resto, não têm nada em comum.

O que faço repetidamente mesmo depois de decidir que não quero continuar?

A decisão já foi tomada, talvez mais do que uma vez.

Repara no que acontece para que ela acabe por não se manter.

Com quem me torno uma versão diferente de mim?

Não necessariamente melhor ou pior.

Só diferente, e vale a pena reparar em que partes tuas aparecem e quais ficam caladas.

O que costumo sentir imediatamente antes de me calar?

Os três segundos antes, não o silêncio em si.

É aí que costuma estar a informação a sério.

O que continuo a adiar apesar de pensar nisso muitas vezes?

Não a tarefa em si.

Repara no que te faz continuar a voltar a ela sem chegares a avançar.

Uma pergunta não precisa de ser bem respondida. Precisa de andar contigo tempo suficiente para reparares em algo novo.

Não tenhas pressa de interpretar

Nenhuma destas perguntas vem com uma interpretação, de propósito.

A resposta a “com quem me torno uma versão diferente de mim?” não é para diagnosticar.

É para observar da próxima vez que acontecer, o que costuma ser mais útil do que decidir ali mesmo o que isso significa.

É aqui que entra o Intoma Journal.

Não é um sítio para responderes às seis numa sentada, mas uma pergunta de cada vez, com espaço para reparares no que ela começa a tornar visível antes de passares à seguinte.

Não estás a tentar terminar o autoconhecimento.

Estás a construir o hábito de andar com uma pergunta contigo, em vez de a fechares assim que disseste algo que soa verdadeiro.

É possível que na próxima semana continues sem resposta a nenhuma destas perguntas.

Mas talvez te apanhes a meio de um sim, por uma vez, antes de o teres dito.